24 de outubro de 2010
Os Tapuias do Seridó
Esta é a segunda crônica da série O deserto é aqui, cuja publicação teve início na edição do domingo 17 passado. Então, às rápidas, referi-me aos índios Tapuias, e aos ciclos do gado, do algodão e do minério. Passei de través na questão da açudagem, nem de longe toquei na polêmica da transposição do São Francisco. Parece-me, portanto, que é preciso aprofundar o tema, de suma importância para o Seridó.
A matéria é antiga, antecede ao ano de 1700, quando Manoel de Souza Forte fundou o lugar somente elevado a povoado 35 anos depois, e que hoje se chama Caicó.
Destarte, muito antes de existir qualquer sinal dessa nossa querida cidade, em seu território já se desenrolava uma sangrenta guerra dos colonizadores europeus contra os verdadeiros proprietários das terras, os índios Tapuias, tão antigos donos da região do Acauã, que, quando descobriram o Brasil, eles aqui moravam havia séculos.
Todavia, sendo tão antiga, a matéria continua muito interessante e atraente, decorrência de seus liames com a sociedade pluralista hodierna, pontos que não podem ser esquecidos pelos brasileiros mais esclarecidos.
Quase um século depois do descobrimento do Brasil (em abril de 1598) é que os portugueses se dignaram vir ao sertão conhecer os nativos em Cuó! Aqui os Tapuias, divididos em diversas tribos, habitavam as chapadas das nossas serras mais altas, liderados pelo rei Janduí.
Por mais de vinte anos, de 1633 a 1654, o Rio Grande do Norte esteve sob o domínio holandês. Na Capitania do Rio Grande já era considerável o rebanho bovino e os batavos precisavam de carne e também de farinha para alimentar o seu contingente de ocupação em Pernambuco. Não podiam depender apenas dos suprimentos vindos da Europa.
É aqui que entram os Tapuias do Seridó. Ficaram solidários com os holandeses, contra os portugueses. Entraram na luta com tal desempenho que chegaram até a ir combater no exterior, ao lado dos invasores flamengos, a procura de ouro no Chile! Foi total o apoio tapuia aos holandeses, reconhecido oficialmente pelo próprio Maurício de Nassau, que, ao estabelecer o brasão do Rio Grande do Norte, nele colocou uma ema, representando os Tapuias, ágeis em seus deslocamentos, rápidos como uma ema. (Vejam o símbolo na imagem ora divulgada em reverência de agradecimento ao grande escritor e poeta Moacy Cirne. A respeito da crônica Minhas Estampas Eucalol ele me enviou bela e comovente mensagem).
Mas a parceria complicou-se com as chacinas de Cunhaú, Uruassú e da casa de João Lostão Navarro comandadas por Jacob Rabbi, que foi preso e fuzilado pelos holandeses. Os Tapuias não concordaram com a condenação de Rabbi, que ao lado deles convivera quatro anos como intérprete e mediador no relacionamento com os neerlandeses.
Rompidas as relações, os holandeses perderam força e, em 1654, foram expulsos do Brasil. Estava selada a extinção dos Tapuias!
De fato, restabelecido o domínio português, teve início o processo de ocupação e povoamento do sertão do Seridó. Iniciava-se nova guerra, agora contra os índios Tapuias, que, com justa razão, se opunham aos fazendeiros que aos poucos se instalavam na região como donos das imensas áreas de terra que o governo lhes doava. Para se ter uma idéia do tamanho das sesmarias do Seridó, a primeira delas, no rio Acauã, media 4 léguas de largura por 20 léguas de comprimento! Outra, no rio Espinharas, media 12 léguas de largura e 50 léguas de comprimento! Que iria sobrar para a sobrevivência dos índios?
Sem dó nem piedade, o governo contratou os trabalhos de Domingos Jorge Velho que tinha carta branca para degolar e exterminar os Tapuias do sertão da Capitania, especialmente os Janduís do Seridó.
Em agosto de 1689, na Serra da Rajada, em Acari, em um só ataque aos Tapuias, foram degolados 1500 índios e aprisionados 300 para serem vendidos como escravos! Domingos Jorge Velho violentava as mulheres mais bonitas da tribo derrotada e escravizava as demais.
Pouco mais de um ano depois, no mesmo local, degolou centenas de índios, fez mais de 1000 prisioneiros e outro tanto de mulheres e crianças escravizados!
Calculam alguns historiadores que Domingos Jorge Velho durante os três anos e meses vividos no sertão, entre Açu e o Seridó, teria gerado mais de mil filhos com índias escravizadas, das quais se aproveitou e abusou!
Quando deixou o Seridó para ir exterminar com idêntica selvageria o Quilombo de Palmares, ao visitar o Bispo de Pernambuco, D. Frei Francisco de Lima, este, em poucas e duras palavras, traçou o caráter animalesco desse carrasco de índios:
“Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo intérprete, porque nem falar sabe, nem se diferença do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem 7 índias concubinas, e daqui se pode inferir, como procede no mais, tendo sido a sua vida desde que teve uso da razão (se é que teve, porque assim foi, de sorte a perdeu, que entendo não achará com facilidade) até o presente andar metido pelos matos à caça de índios, e índias, estas para o exercício das suas torpezas e aqueles para os granjeios dos seus interesses.”
E assim, irracionalmente, começou a marcha do Seridó para o deserto. Os primeiros banidos da região foram os 15.000 brasileiros natos. O Rio Grande do Norte é o único estado da federação em que os índios foram totalmente dizimados!
Por reagir energicamente contra o genocídio comandado pelo homem branco, duas vezes foi preso e humilhado o famoso Janduí, morubixaba dos Tapuias do Seridó. Já velhinho, com mais de 100 anos, desterrado e apavorado com a violência dos homens que se diziam civilizados, assistiu à prisão de dois filhos seus, a seguir enviados para Portugal como presente ao Rei! Tristeza, muita tristeza, deve ter sido o último desalento e a causa final da morte desse lendário e bravo indígena seridoense

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