domingo, 10 de abril de 2011

leitura de domingo

A dificil vida fácil pós-Viagra

Escrito por:Xico Sá...


E eis que encontro a G.
A (perdão pudicos) gostosa da G., 27 anos. Havia conhecido com 21, 22, na Faculdade Anhembi Morumbi, SP, em uma palestra para os alunos do curso de Jornalismo.
Gananciosa, impaciente com o ritmo normal das esperas da vida e entusiasmada com o surfistismo possível, virou garota de programa, como relembra. Moda, modinha muito em alta na época.
Depois de abandonar o sonho do lead e do sub-lead, o começo e o subcomeço das reportagens, para explicar a quem não é do ramo, G. levou a sério a nova profissa. Queria ter as coisas. Justo. Impaciente demais da conta para ser uma escrava da pauta.
Família classe média em crise.
Moema, zona sul.
Cobranças.
Fumaças maconhosas no inconsciente. Perdições. E haja.
Ganhou dinheiro. Nao sei se muito, conta pouco sobre isso.
Torrou um bocado em champanhe e drogas, arrebanhou de novo outro tanto, cheirou mais uma vez a nova remessa da moeda que chegou fácil, casou com um cara milionário (para os seus padrões), um pleiba, óbvio, que não segurou a onda –“Puta!”, acusação repetida toda noite, mesmo tendo sido esse o fetiche inicial do rapaz. Humilhação.
Idas, voltas, ela conta, difícil acompanhar direito narrativa veloz dentro da noite, só lembro do seu rostinho na primeira fila da sua escola. Naquela noite da palestra. Classe. Que linda. Recordo, ela perguntou: “Gosta do Pedro Juan Gutiérrez, o cubano?”
Também falou, sei lá, do começo do livro “Lolita”, aquela coisa do céu da boca, Lo-li-ta, o palato, a pronúncia, essas coisas do professor tarado H.H., o personagem. Menina! Ela sabia tudo.
No que G., sem mais nem menos, no nosso reencontro, salta a marcha da história, e rebenta: “Larguei a difícil vida fácil, como classificavam antigamente o nosso ramo”.
G., não duvidem, é uma das garotas mais inteligentes que este velho cronista do amor e da sorte já encontrou sob os fios de barbas brancos.
Moral da história, na voz macia da moça: “O Viagra e seus congêneres (ela é capaz desse vocabulário, senhoras e senhores, por isso que eu me apaixono de novo) está acabando, e não é de hoje, com a mais antiga das profissões”.
Comassim, indago, no susto.
“Até os tiozinhos de 60 chegam em cima da gente e não saem nunca, nem empurrados, dão trabalho demais da conta, temos que aguentar aquele paudurêscia inverossímil!"
Sim,amigos,ela ama a palavra inverossímil, ela é inteligente, donde inverossímil vem a ser aquilo que de fato não parece verdadeiro, podicrê.
Assim como vovô viu o Viagra, ditame da nova cartilha moderna, os tiozinhos pós-40 e os mais jovens, de todos as faixas, também usam o dopping do sexo. É cada vez mais raro aquele cliente que chegava para contar a sua vida, bater um papo. Acabou a moleza também daquela transa rapidíssima, precoce, dinheiro sem muito trabalho.
Já era. Esquece. G. me convence.
“Estou caindo fora”, lavra a despedida. "Não que eu buscasse romantismo, queria era dinheiro mesmo, mas animalizou geral a parada".
A difícil vida fácil nunca foi tão punk em tempos enviagrados.
Levo G. para tomar um sorvete...

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