O deserto é aqui
17 de outubro de 2010
O deserto é aqui
Em tempo geológico um dia para as nossas vidas é espaço de tempo equivalente a pelo menos um milênio na vida do planeta que habitamos. Posso afirmar, portanto, que há pouquíssimo tempo o solo do Seridó pertencia integralmente aos Tapuias, que aqui viviam livres e felizes como a própria natureza.
Os homens brancos, senhores de fazendas e engenhos no litoral, ricos e poderosos — na avaliação indígena, resolveram ocupar e explorar todo o Seridó, terras evidentemente pertencentes aos índios.
Para enfrentar a justa reação dos nativos o governo trouxe para o sertão, fortemente armado, o matador de índio Domingos Jorge Velho (sobrinho e homônimo do famoso Bandeirante paulista), que aqui no Seridó perpetrou o maior genocídio de que se tem notícia no Brasil.
Em menos de dois anos foram barbaramente massacrados todos os índios da região. De uma só vez matou nada menos do que 3 mil Tapuias na Serra da Rajada em Acari! É a maior carnificina de índios brasileiros. E o quartel general desse carniceiro era a casa do Cuó, cujos escombros ainda existem em Caicó, no bairro Penedo, descobertos pelo nosso maior historiador, Olavo Medeiros Filho, caicoense ilustre de quem tive o privilégio de ser amigo, admirador e confrade no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Dizimados os índios, vieram os bois. Inicia-se o processo de desertificação do Seridó. Pelo pisoteio intenso e pelo desmatamento incontrolável para a abertura de novos espaços para a pastagem e campos de solta.
Iniciava-se o ciclo da carne e do couro, a região conquista posições invejáveis como centro exportador desses produtos e também de leite, queijo, manteiga, etc.
Ninguém notava que a caatinga estava virando capoeira.
Surge outro nativo, o famoso algodão mocó, que, em seu ciclo de riqueza e prestígio, conduziu o Seridó ao mercado internacional e a conquistar o reconhecimento em certame nacional de qualidade como produtor do melhor algodão do Brasil.
Não surtiram efeitos práticos as sábias recomendações de Juvenal Lamartine e de José Augusto Bezerra de Medeiros. Trocaram por espécies exóticas o nosso algodão mocó, nativo, resistente e de fibra mais longa do que o algodão egípcio, então considerado o melhor do mundo.
Miscigenaram o nosso algodão com a implantação de variedades alienígenas. Foi uma vitória pírrica. O bicudo acabou com a economia seridoense. Esvaziou a zona rural. Tirou do mapa o vigoroso algodão mocó.
Muitos jovens seridoenses de hoje nunca viram um capulho desse precioso algodão, a não ser os que porventura tenham analisado com atenção o brasão do Rio Grande do Norte.
Apareceu, enfim, a scheelita. Durou pouco. A produção do Seridó não teve competitividade para enfrentar a grande produção e os baixos preços chineses do minério no mercado internacional.
E ninguém notava que a capoeira estava virando deserto.
Por isso é preciso notar, para que não se repitam erros nem se renovem engodos; e para que se possa iniciar um eficaz programa de salvação do Seridó:
1ª — Entre as regiões em processo de desertificação no Brasil, o Seridó norte-rio-grandense é a que se encontra em estágio mais avançado em direção ao deserto e a que tem a maior população, cerca de 300 mil habitantes. Precisamos, portanto, urgentemente, de providências efetivas, reais, concretas, dos órgãos governamentais responsáveis pela execução dos programas de combate à desertificação. Nada de protelações nem promessas. É preciso investir maciçamente no reflorestamento da região e na fiscalização contra a retirada ilegal de lenha para queimar telha e tijolo. É preciso investir pesado na recuperação de solos e, ao mesmo tempo, na fiscalização contra a degradação ambiental causada pela retirada de argila dos nossos açudes e várzeas para a fabricação de artefatos cerâmicos.
2ª — Grande parte da diversidade biológica da caatinga, dominante no Seridó, como em todo o Nordeste, não é encontrada em nenhum outro lugar do planeta, sendo o único bioma predominantemente brasileiro em nosso país. Será que ainda haja seridoense tão bronco que concorde com a devastação desse nosso valioso patrimônio?3ª — Com capacidade total de 2 bilhões e 400 milhões de metros cúbicos, são 12 os principais açudes do Seridó. Onze deles represam apenas 432 milhões de metros cúbicos. Responsáveis pela intensa evaporação da região, a tal ponto de se poder afirmar que no Seridó chove de baixo para cima, mandam mais água para as nuvens do que estas nos devolvem em forma de chuva! Urge que se utilize melhor essa água represada enquanto ela não evapora! Não é possível protelar por mais tempo a construção de todos os açudes públicos projetados para o Seridó, principalmente a do Oiticicas e a do Gargalheiras (foto acima), neste as obras de aumento de sua capacidade de represa para a bitola inicialmente projetada. Isso para que, pelo menos, os seridoenses passem a ter segurança no fornecimento d’água potável. Caicó, ao que sei, já é servida por três adutoras. Mesmo assim não é constante e diário o fornecimento d’água em todos os bairros. Currais Novos enfrenta problemas maiores. Em Carnaúba dos Dantas também é precaríssimo o serviço de água encanada! É gigantesco o déficit hídrico do Seridó.
4ª — A cada ano são mais de 2.000km² de desmatamento no RN, 10% de sua área verde. Lenha para cerâmicas. O Seridó tem quase 50% das cerâmicas do Estado. A continuar como está, daqui a 40 anos, em 2050, o Seridó será um deserto, segundo afirmações de José Roberto Lima, técnico do Ministério do Meio Ambiente.
5ª — É esse, sem dúvida, o nosso maior problema. Os demais são questões pontuais, que no deserto têm pouca serventia. Se o meio ambiente do Seridó reconquistasse a pujança do tempo dos Tapuias todos esses problemas pontuais seriam solucionados pelos próprios seridoenses, sem necessidade alguma de socorro.
Finalmente, ou o Brasil enfrenta com rigor o fenômeno da desertificação no Seridó ou o Seridó será a primeira região do Brasil a virar deserto.
Os homens brancos, senhores de fazendas e engenhos no litoral, ricos e poderosos — na avaliação indígena, resolveram ocupar e explorar todo o Seridó, terras evidentemente pertencentes aos índios.
Para enfrentar a justa reação dos nativos o governo trouxe para o sertão, fortemente armado, o matador de índio Domingos Jorge Velho (sobrinho e homônimo do famoso Bandeirante paulista), que aqui no Seridó perpetrou o maior genocídio de que se tem notícia no Brasil.
Em menos de dois anos foram barbaramente massacrados todos os índios da região. De uma só vez matou nada menos do que 3 mil Tapuias na Serra da Rajada em Acari! É a maior carnificina de índios brasileiros. E o quartel general desse carniceiro era a casa do Cuó, cujos escombros ainda existem em Caicó, no bairro Penedo, descobertos pelo nosso maior historiador, Olavo Medeiros Filho, caicoense ilustre de quem tive o privilégio de ser amigo, admirador e confrade no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Dizimados os índios, vieram os bois. Inicia-se o processo de desertificação do Seridó. Pelo pisoteio intenso e pelo desmatamento incontrolável para a abertura de novos espaços para a pastagem e campos de solta.
Iniciava-se o ciclo da carne e do couro, a região conquista posições invejáveis como centro exportador desses produtos e também de leite, queijo, manteiga, etc.
Ninguém notava que a caatinga estava virando capoeira.
Surge outro nativo, o famoso algodão mocó, que, em seu ciclo de riqueza e prestígio, conduziu o Seridó ao mercado internacional e a conquistar o reconhecimento em certame nacional de qualidade como produtor do melhor algodão do Brasil.
Não surtiram efeitos práticos as sábias recomendações de Juvenal Lamartine e de José Augusto Bezerra de Medeiros. Trocaram por espécies exóticas o nosso algodão mocó, nativo, resistente e de fibra mais longa do que o algodão egípcio, então considerado o melhor do mundo.
Miscigenaram o nosso algodão com a implantação de variedades alienígenas. Foi uma vitória pírrica. O bicudo acabou com a economia seridoense. Esvaziou a zona rural. Tirou do mapa o vigoroso algodão mocó.
Muitos jovens seridoenses de hoje nunca viram um capulho desse precioso algodão, a não ser os que porventura tenham analisado com atenção o brasão do Rio Grande do Norte.
Apareceu, enfim, a scheelita. Durou pouco. A produção do Seridó não teve competitividade para enfrentar a grande produção e os baixos preços chineses do minério no mercado internacional.
E ninguém notava que a capoeira estava virando deserto.
Por isso é preciso notar, para que não se repitam erros nem se renovem engodos; e para que se possa iniciar um eficaz programa de salvação do Seridó:
1ª — Entre as regiões em processo de desertificação no Brasil, o Seridó norte-rio-grandense é a que se encontra em estágio mais avançado em direção ao deserto e a que tem a maior população, cerca de 300 mil habitantes. Precisamos, portanto, urgentemente, de providências efetivas, reais, concretas, dos órgãos governamentais responsáveis pela execução dos programas de combate à desertificação. Nada de protelações nem promessas. É preciso investir maciçamente no reflorestamento da região e na fiscalização contra a retirada ilegal de lenha para queimar telha e tijolo. É preciso investir pesado na recuperação de solos e, ao mesmo tempo, na fiscalização contra a degradação ambiental causada pela retirada de argila dos nossos açudes e várzeas para a fabricação de artefatos cerâmicos.
2ª — Grande parte da diversidade biológica da caatinga, dominante no Seridó, como em todo o Nordeste, não é encontrada em nenhum outro lugar do planeta, sendo o único bioma predominantemente brasileiro em nosso país. Será que ainda haja seridoense tão bronco que concorde com a devastação desse nosso valioso patrimônio?3ª — Com capacidade total de 2 bilhões e 400 milhões de metros cúbicos, são 12 os principais açudes do Seridó. Onze deles represam apenas 432 milhões de metros cúbicos. Responsáveis pela intensa evaporação da região, a tal ponto de se poder afirmar que no Seridó chove de baixo para cima, mandam mais água para as nuvens do que estas nos devolvem em forma de chuva! Urge que se utilize melhor essa água represada enquanto ela não evapora! Não é possível protelar por mais tempo a construção de todos os açudes públicos projetados para o Seridó, principalmente a do Oiticicas e a do Gargalheiras (foto acima), neste as obras de aumento de sua capacidade de represa para a bitola inicialmente projetada. Isso para que, pelo menos, os seridoenses passem a ter segurança no fornecimento d’água potável. Caicó, ao que sei, já é servida por três adutoras. Mesmo assim não é constante e diário o fornecimento d’água em todos os bairros. Currais Novos enfrenta problemas maiores. Em Carnaúba dos Dantas também é precaríssimo o serviço de água encanada! É gigantesco o déficit hídrico do Seridó.
4ª — A cada ano são mais de 2.000km² de desmatamento no RN, 10% de sua área verde. Lenha para cerâmicas. O Seridó tem quase 50% das cerâmicas do Estado. A continuar como está, daqui a 40 anos, em 2050, o Seridó será um deserto, segundo afirmações de José Roberto Lima, técnico do Ministério do Meio Ambiente.
5ª — É esse, sem dúvida, o nosso maior problema. Os demais são questões pontuais, que no deserto têm pouca serventia. Se o meio ambiente do Seridó reconquistasse a pujança do tempo dos Tapuias todos esses problemas pontuais seriam solucionados pelos próprios seridoenses, sem necessidade alguma de socorro.
Finalmente, ou o Brasil enfrenta com rigor o fenômeno da desertificação no Seridó ou o Seridó será a primeira região do Brasil a virar deserto.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó



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