quinta-feira, 25 de novembro de 2010

 
A tragédia do algodão Mocó



A triste história do algodão Seridó me foi contada no Rio de Janeiro, de viva voz, por um homem já velho, profundo conhecedor do assunto, e que dedicara toda a sua longa vida pública aos mais elevados interesses do Rio Grande do Norte, de modo especial à terra onde nascera. Refiro-me a José Augusto Bezerra de Medeiros, caicoense da Praça da Liberdade, deputado, senador, governador do Estado, eminente homem de letras e defensor maior do nosso algodão mocó (foto).  Quando em 1955 votei pela primeira vez foi o nome dele que sufraguei para deputado federal. E nele continuaria votando, como o fiz na eleição seguinte, quando não se reelegeu. Faleceu em 1971. Foi o único caicoense que, como político, alcançou real dimensão nacional, principalmente pelo seu trabalho em prol da educação.
O algodão mocó, nativo do Seridó, foi encontrado em seu estado selvagem, aqui, na serra da Formiga.  É uma variedade arbórea, conhecida também como “algodão do Seridó”, adaptada ao solo árido, resistente às secas e que produz fibras longas, de grande brancura e sedosidade.  Era cultivado inicialmente pelos índios, depois em pequenas plantações nas fazendas e sítios da região.  É a única espécie de algodão genuinamente brasileira.  As demais, e são muitas, foram importadas de outros países ou resultam de miscigenação aqui mesmo no Brasil.
O Seridó chegou a produzir quase 50% de todo o algodão exportado pelo Rio Grande do Norte. Era a principal fonte de emprego e renda do Estado, o nosso ouro branco, ou “o maná em rama que Deus mandara para o Seridó”, como queria o poeta Manoel Felipe da Costa Filho, cuja influência conseguiu que o nome da sua cidade fosse por algum tempo mudado de Ouro Branco para Manairama. 
Esta ligeira crônica não comporta discussões técnicas a respeito de qualquer assunto, muito menos sobre o algodão à luz da economia ou da agronomia. O debate técnico tem gerado inúmeras publicações na internet, em livros e revistas especializadas, repletos de idéias científicas respeitáveis. Visto o tema pelo lado econômico, pelo que tenho lido, convenci-me de que, sendo o Seridó o hábitat do único algodão nativo do Brasil, aqui não é a terra apropriada para se ganhar dinheiro com o seu plantio!
O algodão mocó, arbóreo, resistente a secas, fibra longa, uma das melhores do mundo, tem baixa produtividade, não oferecendo, portanto, competitividade nos mercados do produto.
Imaginem uma pessoa completamente despreparada para receber uma  fortuna imensa.  Como muitos que, sorteados na Mega Sena, desbaratam rapidamente toda a dinheirama recebida e retornam pobremente à vida que tinham antes.
Essa situação tem alguma semelhança com o que aconteceu aqui no Seridó com o nosso famoso algodão, um dos melhores do mundo.  A riqueza inestimável que a natureza nos tinha dado de mão beijada.
O desleixo com o tratamento dos algodoais; o descaso com a seleção das sementes e o irracional combate aos insetos e moléstias que atacavam as plantações provocaram a paulatina miscigenação do algodão mocó. A espécie só não terá desaparecido definitivamente do planeta se existir no Banco de Sementes da Embrapa alguma reserva de segurança de sementes selvagens dessa relíquia seridoense. Queira Deus minha esperança possa germinar.
Caso contrário, a incúria dos próprios seridoenses deu margem a essa tragédia.
Quanto ao bicudo, foi ele apenas mais um desastre; muito danoso, porém não o mais letal, talvez, como suspeitam alguns, aqui introduzido propositadamente pela concorrência internacional.  Essa é outra história longa, que começa com a Guerra da Secessão (EUA), quando o Brasil dominou o mercado internacional do algodão. 
A verdade nua e crua é que os seridoenses têm sido muito ingratos com o seu precioso algodão mocó, variedade exclusiva da região, único algodão nativo do Brasil.  É antiga a minha impressão de não ser razoável o desprezo imposto ao nosso célebre algodão, único bem da natureza que só existia no Seridó. Nenhuma outra região do mundo possui algodão igual no comprimento da fibra e na resistência da planta a secas.  Um verdadeiro milagre da natureza, resultante do seu lento processo de evolução das espécies, cujo tempo é medido em milênios, não em séculos, muito menos em anos.
Pode até parecer exagero, mas não titubeio em afirmar que o algodão nativo do Seridó representa para a região o mesmo valor que a Catedral de São Pedro representa para Roma; o Corcovado para o Rio de Janeiro; as Pirâmides para o Egito; a Grande Muralha para a China; a Torre de Londres para a Inglaterra e o Louvre para a França. Para mim, o algodão mocó, por ser obra da própria natureza e não dos homens, representa muito mais, tem poderoso significado místico, tal como o do Cruzeiro do Sul para todo o nosso hemisfério.
Entretanto, hoje em dia, são poucos os jovens que conhecem a importância dessa preciosidade vegetal nativa do Seridó.  Não sabem sequer que foi o algodão mocó o maior propulsor do desenvolvimento econômico da Região.  Desconhecem o valor de sua fibra, uma das mais longas do mundo.  Que, se fosse ouro, teria seu teor classificado em 24 quilates, e que é uma árvore, e não uma erva como os demais algodões produzidos no Brasil. É perene e não de vida curta como os herbáceos. Produz por anos e anos e, graças a suas profundas raízes, é resistente a secas. 
Infelizmente não soubemos aproveitar essas valiosas peculiaridades. Faltou-nos inteligência para lidar com as diferenças e tino comercial para ganhar dinheiro com algo mais raro que um diamante.  Como naquela antiquíssima lenda do galo que se deparou com um diamante e ficou furioso porque preferia ter encontrado um grão de milho! 
Temos sido impiedosamente ingratos com o nosso algodão mocó, cuja semente selvagem, nativa, talvez ainda exista em algum Banco de Sementes, talvez no da própria Embrapa, estatal que desenvolve excelente trabalho em prol da cotonicultura brasileira. 
É tempo de corrigir o grave e injusto desterro imposto ao nosso velho e bravo algodão.  É preciso replantá-lo em nossas praças, em nossos jardins e em nossos corações, principalmente. Em todas as propriedades públicas, onde existam terras inaproveitadas à montante dos açudes públicos como no Itans, no Mundo Novo e em outras propriedades do governo, como na Estação Experimental de Cruzeta.
Seriam pequenos campos de produção de sementes para distribuição aos sitiantes e fazendeiros interessados.  É melhor uma pequena produção do que nada produzir.  E ninguém duvide, quando aparecer a semente selecionada do algodão mocó verdadeiro aparecerão novos interessados no seu plantio e, aos poucos, novos mercados abrirão suas portas para a pluma inigualável do mocó fibra longa do Seridó.
Verdade é que, com as inovações introduzidas na indústria, o velho algodão mocó não pode ter a pretensão de alcançar as importantes posições que no passado ocupou no mercado; quer, apenas, um lugar ao sol na terra onde nasceu, liberdade de viver e de produzir.  Nada mais quer porque dele ninguém retirará jamais o que lhe foi concedido pela própria natureza: o reconhecimento de melhor algodão do Brasil, um dos melhores entre os melhores algodões do mundo. 

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