5 de dezembro de 2010
Mulheres em foco
Meu pai era comerciante retalhista de café em grão quando, em 1918, ao ser inaugurado o Mercado público de Caicó, nele se estabeleceu com bodega de miudezas em geral.
Nesse mesmo ponto comercial trabalhou meio século até se mudar para Recife, já aposentado. Na liquidação da mercearia para venda do ponto, entre a papelada recolhida nas gavetas, ainda se encontrava uma pasta, sem identificação, que fora abandonada no balcão fazia uns 5 anos.
Nela estavam arquivadas mais de 100 laudas de papel almaço contendo histórias de pessoas e fatos da região, todas assinadas por LM, abreviatura nunca identificada.
Essa papelada permaneceu em meu poder por muitos anos, mas foi quase toda destruída pela ação natural do tempo, principalmente pela elevada umidade do ambiente em depósito de antiga granja que possuía em Maçaranduba, distrito de Ceará-Mirim.
Todas as histórias, a começar pela que se referia ao primeiro roubo de peças de ouro pertencentes ao patrimônio de Sant' Ana, Padroeira de Caicó, tinham sempre, como personagens de maior relevo, mulheres da região num período que se encerra no meado dos anos 1960.
Vou iniciar à publicação de algumas dessas histórias, descaracterizando pessoas, ambientes, fatos e trocando datas e nomes, a fim de evitar ofender ou magoar pessoas descendentes de alguns dos personagens de certas narrativas pouco recomendáveis para quem ainda não atingiu a maioridade tolerante. Estarei, portanto, publicando histórias realistas, ficcionais, literatura popular, oral; e não História com H maiúsculo, ciência pesquisada e comprovada nos centro especializados das Universidades.
Entretanto, posso assegurar aos leitores não haver lá muita diferença entre uma e outra dessas versões. Basta ver o número de inverdades e manipulações já apontadas na História oficial do Brasil.
Agirei dessa maneira porque depois que comecei a publicar crônicas no Bar de Ferreirinha tenho recebido mensagens para que eu ponha na internet vultos femininos da história do Seridó, principalmente de Caicó, pois, como é sabido, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher.
Peço, entretanto, permissão para esclarecimentos. Até 1970 não havia em Caicó uma só rua com nome de mulher. Foi quando consegui batizar com o nome de Generina Vale uma das principais transversais da Avenida Seridó.
Em livro que publiquei em 2000, para marcar a passagem do século XX para o XXI, escrevi mais de 40 páginas sobre as mulheres caicoenses. Todavia, nunca escrevera nada sobre as figuras masculinas que tenho trazido a lume pela internet.
Mas foram importantes as observações das internautas que reclamaram. Animaram-me a publicar, a meu modo, os manuscritos de LM, tarefa que em breve iniciarei.
Por enquanto, apenas um teste de memória. Já ouviram falar na cobra que acabou um casamento? Na viúva que se recusou a sepultar o corpo do falecido marido? Da jovem camponesa famosa por seus conhecimentos de matemática? Conhecem a histórias dos personagens das grandes tragédias amorosas de Caicó? Já ouviram falar da moça que teve de abandonar para sempre a cidade para poder amar? Do condenado por crime passional que morreu de remorso na cadeia? Caicó é um romance, não é?
Atualmente as mulheres seridoenses escrevem histórias muito diferentes, estão brilhando nas diversas áreas de todos os saberes, são mestras e doutoras nas universidades tanto em ciências humanas como em ciências exatas. São empresárias, professoras, militares, médicas, engenheiras, advogadas, enfermeiras, políticas e exercem todas as demais funções sociais e econômicas do mundo moderno.
A história delas é realmente muito diferente das que resultaram das mulheres que viveram nas primeiras décadas do século passado. Das que constarão das minhas crônicas, mulheres que também foram amorosas, fortes, corajosas e merecedoras de registros.
No futuro outros bloguistas (será que nessa época ainda existirá bloguista) já idosos, que tenham nascido nos últimos anos do século passado, certamente serão os cronistas das virtudes e desvirtudes que marcarão a vida feminina dos anos correntes. Daqui a 70 ou 80 anos os dias atuais serão histórias antigas, do passado que hoje se chama moderno, atual e avançado.
Acuso também o recebimento dos e-mails sobre Lantequera, Seu Benedito e sobre o Cego de Nanu. Oportunamente me estarei servindo dessas excelentes colaborações para novas crônicas. Sinto-me bastante lisonjeado pela atenção desses internautas.
A respeito do lendário cego já possuo algumas notas, mas estou dando prosseguimento à pesquisa para completar o material a ser tratado em crônica para o blog. Estou notando, porém, que algumas dessas velhas histórias terão de ser desdobradas em duas ou até três edições domingueiras, pois, por mais que tentemos resumi-las, elas exigem mais espaço. Tudo indica que a história de Idméia, lenda da moça que ficou viúva antes de casar, literatura oral da região, vai ocupar alguns domingos. Tentarei escrevê-la para a internet, a fim de que não se perca de vez. Espero conseguir paciente compreensão da parte dos internautas que preferem textos enxutos, curtos e atuais.
Espero também continuar recebendo de leitores do blog boas histórias femininas para publicação neste espaço, tais como algumas sugestões já enviadas, que agradeço. Não só femininas, masculinas também.
Para concluir o papo de hoje é bom lembrar que o cronista é um mero nadador de águas rasas e não um salva-vidas, como os romancistas, ou um escafandrista, como os historiadores. Suas narrativas raramente passam de cem linhas, limite em que tem de dizer tudo que sabe e que viu. Mas uma história bem resumida dentro desse limite não raro vale por uma aventura no oceano ou por um mergulho nas profundezas do mar. Tudo depende da singularidade dos fatos e da grandeza dos personagens.
Tudo depende de você, da sua maneira de viver a vida, da sua história particular, pois não existe outra experiência no mundo que enseje uma crônica tão singular e especial como a crônica da vida que você vive.
É só contar.
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó
DA REDAÇÃO - Duas fotos ilustram a crônica de hoje. A primeira de Nathália Guimarães, ex-miss Brasil. A segunda de Maria Bonita, a primeira-dama do cangaço


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